Amigo, a que vieste?

Todo passo dado na mesma direção ata vidas por meio da cumplicidade, do alvo mútuo e da partilha das conquistas. cada instante dividido faz a alma ceder espaços até o ponto de misturar as personalidades, os gestos, pensamentos e convicções, e é por todas estas razões que não há relacionamentos sem dores

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Certamente, como os demais, Judas atendeu prontamente ao chamado do Mestre. Andou junto, comeu junto, viveu junto e tinha muito em comum. Foi chamado de amigo, tra- tado como amigo e foi, sim, amigo de Cristo.

Sendo amigo então, dando-se conta do mal que cometera, não resistiu e enforcou-se, cometendo, por m, seu maior e verdadeiro erro: entregar-se ao remorso em vez de buscar um legítimo arrependimento. Em poucos dias, havendo o amigo ressuscitado, teria alcançado o perdão que, entretan- to, somente Pedro recebeu.

Muito cedo ensinaram-me uma óbvia, mas importante, lição de vida: só os que nos são caros são capazes de ferir-nos a alma. Inimigos não decepcionam e não traem, fazem apenas aquilo que deles esperamos. São as pessoas que amamos que nos machucam, nos ferem e nos fazem chorar doloro- samente. São os amados que nos dão ou tiram o prazer e o desejo pela vida.

O outro é sempre um imprevisto e isso torna caro cada mi- nuto investido num relacionamento. Todo passo dado na mesma direção ata vidas por meio da cumplicidade, do alvo mútuo e da partilha das conquistas. Cada instante dividido faz a alma ceder espaços até o ponto de misturar as perso- nalidades, os gestos, pensamentos e convicções, e é por todas estas razões que não há relacionamentos sem dores. Se “amigo é pra se guardar no lado esquerdo do peito”, qualquer disfunção não sanada pode matar. As feridas po- dem sangrar até a morte ou cicatrizarem-se pela reconcilia- ção, um bálsamo exclusivo do arrependimento e do perdão.

É um bálsamo do arrependimento porque este clama inces- santemente pelo perdão e torna viável a aceitação daquele que falhou, oferece à cicatrização a con ssão e abandono do erro, distinguindo-se muito do remorso, que só gera ver- gonha, fuga e tormento, anestesia as emoções, impossibilita o choro e não impede a reincidência do erro. Arrependimen-

to é a semente que gera vida onde, sob quaisquer outros aspectos, só haveria possibilidade de morte.

É um bálsamo do perdão porque este é a capacidade so- bre-humana do amor de não considerar o dano em prol da reintegração, reinserção e reatamento. É o ensino de Cristo registrado em Lucas 6.29: desconsiderar a ofensa a ponto de pôr-se em risco de sofrê-la outra vez, do mesmo modo. Diante de um legítimo arrependimento, perdoar não é uma opção, mas um mandamento que nos aproxima de Deus e nos viabiliza também seu próprio perdão.

A reconciliação é, dessa maneira, o fruto natural do arre- pendimento que encontra o perdão. É o milagre que faz o cristal, outrora quebrado, novamente íntegro. O milagre que zera dívidas, apaga mágoas e lança os erros no mais distante passado. É a reconciliação que veste com a melhor roupa, põe o anel no dedo e as sandálias nos pés.

Fujamos então da nossa natural semelhança com Judas! Que sejamos capazes de ir além do remorso e deixemos que Cristo nos conduza sempre ao verdadeiro arrependi- mento, certos de que, em todas as manhãs, ele nos oferta seu perdão, e busquemos, por conseguinte, a semelhança com nosso perdoador, deixando o coração limpo e livre para encontrar-se também com o arrependimento daqueles que em algum momento da caminhada nos feriram.

Que, na reconciliação, as mãos se encontrem novamente, que os abraços ressurjam, que as palavras gerem novamente o riso e o contentamento, e que então, no verdadeiro perdão, as almas mutuamente se restaurem e tornem juntas ao caminho da vida.

“E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também te- mos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos per- doará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens, tampou- co vosso Pai perdoará vossas ofensas” (Mt 6.12-15).

Marcelo Belchior

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