O alto preço de um legado

miniatura03_capaAs Olimpíadas e Paralimpíadas realizadas no Rio, em agosto de 2016, foram um sucesso se analisarmos alguns aspectos como, por exemplo, o esportivo, em que vários recordes foram quebrados e houve disputas emocionantes até o final em diversas modalidades.

Outros aspectos positivos foram as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, absolutamente lindas e que tocaram o público que assistiu in loco e também aos que viram pela televisão.

Por fim, podemos citar o intercâmbio de culturas, o voluntariado gigante dos Jogos e as casas dos países espalhadas pela cidade.

Mas, para que tudo isto acontecesse, foi pago um preço. E alto. Muito alto.

Muito se fala em legado, após a realização de algum megaevento na cidade-sede. Eis a definição de legado no dicionário: “O que é transmitido a outrem que vem a seguir” ou “deixar por herança”.

Ao pensarmos no chamado legado olímpico, imaginamos um conjunto de melhorias feitas na cidade que proporcionarão uma melhor qualidade de vida para os habitantes e turistas.

No caso do Rio 2016, a herança que fica, de imediato, é um conjunto de problemas, difícil de enumerar.

A cidade está, como dito, pagando uma conta alta, um alto preço. Para que as obras ficassem prontas a tempo, licitações foram dispensadas e o valor para a realização dos Jogos passou de 39 bilhões de reais, oficialmente falando, pois já se sabe que a Prefeitura omitiu compras para mobiliar a Vila Olímpica.

Hoje, o Estado e a cidade do Rio de Janeiro (notadamente o Estado) vivem uma crise sem precedentes. Servidores e aposentados não recebem seus proventos. A culpa não é somente pela realização dos Jogos, mas também passa por eles.

Mas ainda há outros problemas e aqui pontuaremos dois, em especial: O Parque Olímpico e o Maracanã.

O Parque Olimpíco, que sediou a maior parte das competições olímpicas, está abandonado. O complexo que custou 2, 5 bilhões de reais (e que ainda custará mais 1 bilhão nos anos seguintes) sofre com o descaso das autoridades.

No Parque Aquático, as estruturas estão estragando rapidamente, devido à falta de manutenção e uma piscina usada por campeões olímpicos, como Michael Phelps, acumula água parada. Os painéis pintados pela artista plástica Adriana Varejão estão rasgados. A piscina de aquecimento dos atletas, esvaziada depois da Paralimpíada, não teve manutenção e hoje acumula água suja. Cadeiras que foram retiradas das arquibancadas estão largadas ao ar livre, expostas ao sol e à chuva.

Como não houve interesse da iniciativa privada, a Prefeitura transferiu a gestão ao Governo Federal. A promessa era de que a Arena Carioca 3 seria transformada em uma escola municipal, a Arena Carioca 2 em um centro de treinamento e a Arena Carioca 1 em um centro de excelência em esportes. Algumas arenas seriam desmontadas e transferidas para outro local, onde não perderiam sua usabilidade.

Hoje, o que podemos observar no Parque Olímpico é que ele somente abre nos finais de semana e abriga alguns eventos e shows em algumas datas. Nada perto do que foi prometido.

A alguns quilômetros dali, outra situação de descaso que corta o coração de todo e qualquer carioca que gosta de esportes, notadamente do futebol.

O Maracanã, palco de duas finais de Copa do Mundo e das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, bem como a final olímpica do futebol, onde o Brasil ganhou seu ouro inédito na modalidade está completamente abandonado.

Para estar do jeito que o Comitê Olímpico pediu, o Maior do Mundo passou por uma reforma que custou aos cofres públicos 1 bilhão e 400 mil reais. Para se ter noção do que isto representa, podemos pegar o exemplo de outro templo do futebol, o estádio de Wembley, na Inglaterra, que foi demolido e reconstruído por um valor menor do que a última reforma do Maracanã.

Eis o imbróglio: O estádio pertence ao governo do Estado do Rio. Mas, em 2013, após uma licitação, a exploração comercial e a administração foram entregues por 35 anos ao consórcio Maracanã S/A. Em março de 2016, o consórcio cedeu o Maracanã ao Comitê Organizador Rio-2016 para Olimpíada e Paralimpíada. E, no momento da devolução, o Maracanã S/A não aceitou o estádio de volta sob a alegação de o estádio que não estar na mesma condição em que foi cedido ao comitê Rio 2016.

Fato é que o estádio está completamente abandonado. Televisores foram furtados, assim como bustos de cobre. Há um amontoado de cadeiras retiradas, entulhadas em um canto. O gramado está sem cor, pois não há tratamento adequado para o mesmo.

A luz do estádio foi cortada desde o último dia 26 de janeiro e a conta de luz devida beira os 2 milhões de reais. O povo carioca sofre, pois o palco mais emblemático do futebol está entregue às baratas.

Em qualquer outro lugar do planeta, um símbolo desta magnitude jamais seria tratado desta maneira.

Ainda poderíamos citar o corredor Transbrasil, na Avenida Brasil, que não foi inaugurado ainda e conta com obras atrasadas e o Parque Radical de Deodoro que permanece abandonado, tendo em vista a falta de interesse da iniciativa privada.

O preço pago foi alto. Se formos colocar na balança, sem a emoção que aqueles dias representaram para quem participou, saiu caro. Bem caro. Outras gerações ainda pagarão este preço e não terão desfrutado dos Jogos como a nossa geração.

Não podemos ser egoístas ao ponto de dizer que valeu apenas porque estivemos lá.

Mas já que os Jogos se realizaram e aproveitamos e ainda há uma conta a pagar, que possamos unir nossas forças e cobrar dos governantes soluções para que as próximas gerações possam desfrutar do chamado legado olímpico.

É necessário que não haja acomodação e que possamos refletir na hora de votar, principalmente, exigindo uma postura firme dos próximos governantes.

O Rio de Janeiro merece muito mais do que apenas 1 mês de jogos olímpicos que emocionaram. Nossa cidade merece emocionar o mundo e principalmente nos orgulhar nos 12 meses do ano. Todo ano.

Daniel Ribeiro

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