Dia da Consciência Negra – O dia daqueles que não querem ser esquecidos

negra

Há alguns anos, quando se falava em Dia da Consciência Negra, muitas pessoas reagiam de forma grosseira ou indiferente. Na maioria das vezes, surgia descontentamento com a possibilidade de se separar um dia específico para falar com mais veemência sobre a população negra e sua história. Entretanto, mesmo que o Dia da Consciência Negra não seja um feriado nacional e, em alguns casos, ainda seja facultativo, já se tornou realidade na sociedade brasileira. Cada vez mais as pessoas estão compreendendo a necessidade de um dia para se reportar à história de uma parcela, a maioria por sinal, da população brasileira que traz consigo a marca de uma discriminação sistêmica que perdura até os dias de hoje.

O Dia da Consciência Negra nos faz relembrar a história de escravidão dos negros no Brasil. Escravidão que durou cerca de 350 anos. Portanto, tivemos mais tempo de escravidão que de existência como nação. Logo, se faz necessário relembrar. Lembrar sempre para não esquecer. Mas, não relembrarmos para colocar os negros numa posição de coitados que não são capazes de se tornarem sujeitos de suas próprias histórias, mas, sim, lembrarmos para, além de não cometermos os mesmos erros, responsabilizar o Estado brasileiro por anos de crueldade, exclusão e inferioridade social. Precisamos do Dia da Consciência Negra para que sejam exigidas, ao Estado, políticas públicas de reparação social por anos de discriminação e espoliação. Faz-se necessário, portanto, relembrarmos através deste dia para que vejamos como ainda estamos distantes de sermos um país sem racismo e sem discriminação racial.

Obviamente, as dificuldades para alguns aceitarem esse dia em que refletimos sobre os problemas raciais no Brasil estão calcadas na ideia de que somos uma sociedade formada por um triangulo de raças onde o intermediário, o mulato, é valorizado em detrimento do negro e do índio (O que faz o brasil, Brasil?, de Roberto DaMatta, Rocco, 1986). Sempre temos uma infinidade de classificações que nos remetem à compreensão de que no Brasil há, na verdade, uma democracia racial da qual devemos nos orgulhar em comparação com outros países onde a dualidade entre as raças está mais presente. Essa democracia racial já tão defendida e, também, por vezes, debatida e ridicularizada, ainda permanece no imaginário coletivo da sociedade brasileira. Entretanto, mesmo que possamos ver diferenças entre o que podemos chamar “mestiços” e aqueles considerados “mulatos” (Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, de Kabengele Munanga, Autêntica, 2004) muitos acham que não há discriminação e racismo no Brasil e não vêm necessidade de se pensar as relações raciais.

Este determinismo social fazia parte da compreensão científica do mundo e do Brasil, pois desde tempos passados os negros são vistos como um mal na sociedade (Os africanos no Brasil, de Nina Rodrigues, Madras Editora, 2008) e essa ideia racista perdura até hoje através da marginalização da população negra.

Quando pensamos o Dia da Consciência Negra não estamos nos reportando a um dia para de festa em mais um feriado, mas, sim, estamos conclamando a nação brasileira para que se veja e olhando-se possa repensar o seu racismo, a sua discriminação. Entretanto, neste dia conclama-se a população negra a que se escute e se perceba como contingente de formação deste país, pois o Dia da Consciência Negra se faz um tempo de reflexão daqueles que não querem se ver esquecidos. Logo, o dia de se ter consciência de quem se é, de sua história e importância como gente é sempre, hoje, ontem e agora.

Marco Davi de Oliveira

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