O cristão e a política

Plano Piloto, Brasília (fonte: www.copa2014.com.br)

Esplanada, Brasília (fonte: http://www.copa2014.com.br)

Se a Igreja é separada do Estado, qual deve ser a posição do indivíduo cristão quanto à política? Historicamente, temos três posições: alienação ou indiferença, envolvimento acrítico e envolvimento crítico. Uma parte entende que o cristão não tem nada a ver com a política, outros dela participam de modo inescrupuloso, e outros participam de maneira transformadora. Esta última é a posição correta, e há base bíblica para isso.
A interação com a política e seus atores é constante na Bíblia. Entretanto, não há na Bíblia nenhum ensino explícito sobre a participação do cristão na política, e isto por dois motivos: o primeiro deles é que o regime teocrático permeia todo o Antigo Testamento. Quem governava a nação, em última instância, era o próprio Yahweh. Portanto, não poderia haver distinção entre política e fé, não seria cabível tratar do assunto tal como o fazemos hoje. O segundo motivo, já no âmbito do Novo Testamento, é que os seguidores de Jesus estavam em posição diametralmente oposta ao Estado Romano e seus vassalos, pois enquanto os cristãos seguiam Jesus Cristo e seus ensinos de um modo radical, os romanos exigiam lealdade ao imperador e sua religião. Não havia como alguém, por exemplo, ser cristão e ao mesmo tempo ser um político romano. No Novo Testamento temos a famosa frase de Jesus “Daí a César o que é de César”, que merece um texto à parte, mas, além disso, o máximo que há são recomendações de honrar e respeitar as autoridades, orar por elas, e proceder como cidadãos dignos. A verdade é que a Bíblia não é um manual de política, e dessa trata apenas incidentalmente, enquanto interagindo no ambiente em que foi escrita.
Numa explicação pessimista para a origem do Estado, Hobbes, pensador inglês do século 17, reutilizou a frase de Plauto (dramaturgo romano, c.230-180 a.C.), que dizia que “o homem é o lobo do homem”, para dizer que o Estado surgiu da necessidade de se evitar que os homens destruam uns aos outros. Talvez seja isso que está na mente de Paulo quando diz que o Estado é ministro de Deus para impor ordem na sociedade. Por isto tem o poder de coerção (espada), sem o qual se impõe a anarquia. Lembremos que há um abismo entre os Estados que faziam parte do ambiente em que se escreveu a Bíblia (e mesmo do tempo de Hobbes) e os modernos Estados de direito, em cuja lei maior estão inseridas as liberdades fundamentais do ser humano, entre elas a liberdade religiosa e a separação entre o Estado e a Igreja. Nessas modernas democracias, o viés é otimista, pois predomina o princípio da representação. Todos os cidadãos têm direitos e deveres políticos, como, por exemplo, o de votar e ser votados. Cada cidadão, como eleitor, representa única e livremente a si mesmo, e cada cidadão que é eleito tão somente representa aqueles que livremente o elegeram.
O direito de votar torna-se, assim, um dever, pois somente aquele que o faz está representando a si mesmo perante os outros. O direito de ser votado também se torna um dever, pois uma premissa da democracia é que alguns cidadãos precisam ser eleitos pelos outros para que possam, em nome dos eleitores, legislar, executar as leis e fiscalizar seu cumprimento. Portanto, nós cristãos, como uma parcela dos cidadãos dignos de uma nação democrática, temos o direito e o dever de participar da vida política, o direito e o dever de votar e ser votados. Especialistas preveem que por volta do ano 2020 os evangélicos serão 50% da população brasileira. Usando a lógica da representação, é lícito esperar que 50% dos cargos eletivos sejam então preenchidos por evangélicos. Evidentemente, trata-se de uma utopia, mas leva-nos a pensar que precisamos mudar nossa mentalidade em relação à participação na política. Se não votarmos, e votarmos bem, alguém que não pensa como nós votará, e, muito provavelmente, elegerá alguém que também não pensa como nós.
Mas, para responder melhor à questão inicialmente proposta, gostaria de aproveitar algumas considerações, aqui citadas e adaptadas livremente, de um antigo discurso de Samuel Escobar, no que se refere a um pensamento político evangélico (“A Responsabilidade Social da Igreja”, Ed. Vida Nova, 1970, discurso proferido no 1º. Congresso Latino-Americano de Evangelização, Bogotá, 1969).
Em primeiro lugar, o evangelho não é um programa social e político. A igreja não espera edificar o Reino de Deus sobre a terra, nem “cristianizar” a sociedade. O destino da igreja não depende desta ou daquela ideologia. Isso está mais do que provado na sua experiência ao longo dos séculos, e mesmo em nossa época, quando tem sobrevivido (e mesmo progredido) em meio aos mais restritivos regimes políticos, como, por exemplo, na China comunista. Entretanto, a igreja precisa, como Cristo, encarnar-se, fazer-se consciente do contexto político e social onde estão as pessoas que ela deve alcançar com a sua mensagem e serviço.
Consequentemente, em segundo lugar, o evangelho não é uma ideologia da classe trabalhadora, da classe média, ou de qualquer outra. Como um grupo social, a igreja corre o risco de tornar-se, ou uma comunidade de brancos segregacionistas, ou um enclave de classe média, com mentalidade e hábitos burgueses, ou uma assembleia dos oprimidos, que defende a luta revolucionária. Entretanto, Jesus não pretendeu erigir ideologias, porque estas separam as pessoas, levando-as à luta, ao preconceito e, frequentemente, ao ódio. Precisamos ter o cuidado de não sermos surpreendidos defendendo posições de classe, em detrimento da verdade de que todos somos um em Cristo.
Em terceiro lugar, a sociedade é mais do que a mera soma dos indivíduos que a compõem. Não haverá transformações somente pelo fato de os indivíduos serem, um a um, mudados pelo poder do evangelho. É preciso que estes pensem e ajam como sal da terra e luz do mundo. A igreja precisa agir socialmente, e isto é mais do que meramente praticar beneficência. A igreja precisa expor-se na linha de frente da batalha pela justiça social, pelas liberdades democráticas, pelos direitos individuais e pela ética em todos os níveis de atividade individual e coletiva. Contra a corrupção, o crime organizado, a má administração pública, o mau uso dos recursos naturais, etc. Enquanto o Rio de Janeiro tornava-se a cidade mais violenta do país, líderes evangélicos se orgulhavam do crescimento numérico de sua população evangélica. Mas, perguntamos: Como uma cidade em que, segundo as estatísticas, residem mais de 2 milhões de crentes em Jesus Cristo, pode ser tão violenta?
Em quarto e último lugar, Jesus Cristo afirmou que o verdadeiro poder é o que vem pelo servir, ensino que está na contramão do que pensa a maioria dos nossos políticos (Mc 10.42-45), mas expressa muito bem o modelo da democracia representativa: o único e verdadeiro poder que o representante tem é exatamente o de representar – leia-se servir – aqueles que o elegeram, e não a si mesmo, à sua família ou a grupos corporativistas. Precisamos desesperadamente de cristãos autênticos, com vocação política, que encarnem em sua atuação esse princípio poderoso: o maior e mais excelente político é aquele que mais e melhor dedica sua vida a servir o próximo, assim como Cristo o fez.

Sylvio Macri

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